domingo, 30 de maio de 2010

O QUE ME LEVOU A TORNAR-ME PROFESSORA?



Sempre que o tema de escolha da profissão vem à tona, eu fico me questionando, assim como faz a maioria dos professores, sobre as razões que influenciaram minha decisão de atuar na área da educação e principalmente, de manter essa atividade ao longo da vida, apesar das inúmeras e amplamente conhecidas forças contrárias. Em meu caso, não é difícil encontrar explicação para a primeira parte do questionamento, é só retroceder pelo caminho da memória e chegar à infância, que passei no Rincão Bonito, uma localidade no interior de Caçapava do Sul. Lá, além das belezas propaladas pelo nome do lugar, não havia muito que eu pudesse ver, isolada do mundo num limbo espaço-temporal sem energia elétrica, sem telefone, sem televisor, na “pré-história” da globalização.

Embora as lentes do tempo e a nostalgia possam estar mascarando minhas lembranças, tenho impressão de ter sido uma criança não muito feliz, mas esperançosa e sonhadora, com uma enorme curiosidade sobre tudo o que me cercava e uma fértil imaginação para suprir as lacunas do meio acanhado em que vivia. Assim que consegui dar sentido às letras, comecei a ler compulsivamente, um hábito que até hoje não abandonei. No início era uma leitora “nota zero” no quesito seletividade, pois lia desde os rótulos dos produtos que minha mãe usava na cozinha à noite até almanaques de farmácia. Mais tarde passei a ler com permissão os quadrinhos Disney que meu pai comprava (atualmente condenados como politicamente incorretos) e sem permissão a coleção de fotonovelas “Grande Hotel – Clássicos da Literatura” de minha mãe, e roubava a chave da escola nos fins de semana para ler antigas e empoeiradas enciclopédias.
Logo aprendi o suficiente para saber que havia um mundo “lá fora”, imenso e fascinante, para onde eu queria escapulir, onde estaria longe da vida que agora sabia tão limitada. Meu pai agricultor era letrado, embora autodidata, e minha mãe, “do lar” e dona de venda, havia frequentado escola até a admissão ao ginásio. Eles valorizavam o saber e queriam uma vida diferente e menos sofrida para as filhas, portanto sempre me estimularam a continuar estudando, mas não havia muitos caminhos abertos para que essa aspiração se concretizasse. Acho que o incentivo maior sempre veio da parte de minha mãe, uma mulher bastante ativa e inteligente, impedida de estudar por um pai que acreditava – como a maioria dos homens daquela época – que as filhas eram para o casamento, não devendo correr o risco de ir estudar na cidade e “cair” na vida. Vivendo nos cafundós sem qualquer contato com a revolução feminista, amando e obedecendo ao pai, minha mãe se casou, passando a amar e a obedecer (mais ou menos) ao marido, levando consigo uma frustração que não queria ver em mim e na minha irmã, por isso nos aconselhou, desde sempre, a “namorar menos e estudar mais”, para não depender de um homem para sobreviver.
A escola na qual eu estudava era separada de minha casa apenas por uma estradinha poeirenta, e tinha somente duas salas de aula para as turmas multiseriadas, de 1ª a 5ª série, geralmente atendidas por uma professora leiga local e por uma professora normalista vinda da cidade, que meus pais costumavam hospedar. Embora almejasse a continuidade de meus estudos, não conhecia muitas pessoas que tivessem seguido esse caminho, portanto carecia de exemplos para me espelhar, e essas professoras acabaram formando em minha cabeça uma ideal a perseguir, na ausência de outros estímulos. Por ter contato com o processo de preparar e dar aulas, e de administrar uma escola, brincar de escolinha foi uma de minhas atividades favoritas.
Já adolescente, morando e estudando na cidade, vi-me na premência de escolher o que cursar no Segundo Grau. Havia poucas possibilidades: fazer o Científico ou um profissionalizante (Contabilidade ou Normal). Escolhi o último por achar atraente a chance de trabalhar cedo e auxiliar financeiramente a família. Confesso que meditei pouco sobre a escolha, antes ou após fazê-la, mas sabia que não era uma questão de querer ser professora, e sim de poder ser. Se havia algum preconceito de gênero envolvido, induzindo-me a optar por uma profissão “feminina”, isso me passou totalmente despercebido.
Meio desorganizada e avessa a burocracia, enfrentei dificuldades no curso, em pleno período da educação tecnicista, mergulhada em exaustivos, minuciosos e inúteis planejamentos. O final foi um pouco trágico, rendendo muitas lágrimas de frustração, pois embora tenha sido aprovada em todas as disciplinas, reprovei no pré-estágio, e teria que refazê-lo antes do estágio propriamente dito, o que custaria mais um ano na mesma escola, na mesma cidade, na mesma... tudo, possibilidade que a urgência de meus anseios não conseguia aceitar. Cheia de raiva e determinação, inscrevi-me no vestibular para o curso de licenciatura em geografia; ou seja, o fracasso não fora suficiente para me convencer de que não podia ser professora.
Para frequentar a universidade, mudei-me para Santa Maria, uma cidade muito maior do que a minha, onde não conhecia absolutamente ninguém. Os obstáculos foram muitos, mas enfrentei-os com coragem, pois achava que o caminho escolhido por mim era naturalmente irreversível, e que o simples fato de ser estudante universitária em uma família onde quase ninguém tinha estudado era uma grande conquista. Além disso, estávamos no final da década de 80, em uma fase bem diferente da atual, anterior à intensa corrosão dos direitos trabalhistas pelas políticas neoliberais, e qualquer diploma de curso superior ainda era uma garantia razoável de emprego e bom salário.  
Ao concluir a graduação rapidamente me dei conta de que as demandas do mercado haviam revolucionado o mundo do trabalho e desvalorizado a qualificação profissional. O meu diploma era suficiente somente para conseguir emprego no ensino básico, então, por uma questão de sobrevivência, comecei a atuar na rede pública estadual e municipal. Em mais de duas décadas, “corri atrás da máquina”, como se diz popularmente: fiz especialização e mestrado, superando as dificuldades de quem precisa conciliar o estudo com todas as outras atribuições “femininas”. Mas, para minha decepção, o que obtive até agora ainda não é suficiente para o que eu realmente quero: ser professora universitária e pesquisadora, pois atualmente os concursos exigem nível de doutorado para essas funções.
Se apenas o desejo de ter uma carreira profissional de sucesso – com sucesso significando dinheiro e reconhecimento – fosse a minha motivação, eu certamente não seria mais professora, porque a maioria esmagadora dos professores não tem uma ínfima parcela disso. Muito pelo contrário, somos apontados como os principais culpados pelo atraso no desenvolvimento do país, seja pelo peso que nossos salários exercem na máquina estatal ou pela nossa incompetência em salvar a péssima educação nacional.
Um fator que colabora para piorar o quadro já assustador é a explicação que nós, profissionais da educação básica, recebemos ao buscar apoio teórico para iluminar a crise em que estamos mergulhados: a quase unânime opinião dos especialistas (muitos deles também professores, mas entronados em seus gabinetes e embrulhados em seus certificados acadêmicos) é de que somos realmente (e inteiramente) responsáveis pelo fracasso. A sociedade em geral (o que inclui as famílias de nossos alunos, e eles próprios) compartilha alegremente dessa concepção, esquecendo que somos marionetes de um sistema de ensino falsamente democrático e de governantes que nos enredam com um discurso aparentemente progressista, mas que esconde a defesa das diretrizes e da hegemonia do modelo econômico capitalista.
Às vezes, após aulas excepcionalmente frustrantes, tenho vontade de bater em alguns dos meus alunos, ou de me jogar embaixo do primeiro caminhão que passar. Essas idéias parecem risíveis e absurdas, obviamente não devendo ser externadas, mas são reveladoras do elevado grau de estresse a que estamos submetidos diariamente. Além do cotidiano difícil, dos baixos salários, da falta de respeito e valorização da profissão, ainda temos a percepção global dos múltiplos desafios enfrentados pela educação atualmente diante de processos como a alteração na estrutura familiar, a escalada de violência na sociedade e a transformação gerada pelos avanços tecnológicos. 
Acredito que aquilo que somos é – principalmente – produto das nossas escolhas pessoais ao longo da vida, e que culpar a conjuntura socioeconômica por todos os nossos problemas é escamotear a realidade. Apesar de ter deixado algumas oportunidades de lado em nome de minha “obrigação” de mãe, com receio da insegurança financeira ou da falta de tempo para cuidar meu filho, preciso reconhecer que isso, a despeito das pressões familiares e sociais que recebi, foi voluntário.  Entretanto, quando penso na trajetória profissional de meus colegas de turma, não posso deixar de perceber que aqueles que estão no patamar que eu gostaria de alcançar são todos homens. Ainda assim, acho que esse fato, ao invés de me desestimular, deve ser um incentivo, porque hoje as mulheres tem mais visibilidade e espaço do que em qualquer outra época da história, e se parti do mesmo ponto que eles, tenho plenas condições de alcançá-los mesmo sendo mulher.
 Não sou uma pessoa religiosa, creio firmemente que só temos uma vida, e nenhuma oportunidade de recuperar o tempo perdido com nossos erros, por isso defendo a imensa responsabilidade do ser humano ao agir, e o trabalho é parte importantíssima de nossa pequena contribuição para melhorar o mundo e ajudar nossos semelhantes. Em consonância com essa visão, a minha motivação atual para continuar ensinando é a mesma do princípio: a esperança. Não dizem que a utopia é o que nos faz caminhar? Acredito que a longo prazo encontraremos um ponto de equilíbrio no sistema de educação brasileiro, para o qual terei contribuído de alguma forma com o meu esforço de renovação.




Ser educador é partilhar a emoção da descoberta com os alunos, é ensinar aprendendo...




















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