sexta-feira, 7 de maio de 2010

Memorial da vida acadêmica

Como quase toda criança, eu chorei no primeiro dia de aula e voltei para casa. Foi fácil, pois eu morava em frente à escolinha rural onde estudei até a quinta série. Depois tudo foi se acomodando aos poucos, e a minha professora pôde perceber que eu já estava semi-alfabetizada (pelo meu pai, que me punha no colo e lia comigo uma antiga cartilha – “Ivo vê a uva”, etc. – e pelas revistinhas Disney trazidas por ele da cidade, em uma época na qual ainda não havia televisor). Devido à minha condição, avancei da primeira para a segunda série no meio do ano, e acompanhei os colegas sem dificuldades. Meus obstáculos eram de outra ordem: eu era pequena, fraca e tímida, sendo frequentemente ameaçada (e às vezes agredida) pelos alunos maiores. A salvação ocasional era minha irmã mais velha, também pequena, porém mais esperta. Nossos pais tinham uma venda, então ela subornava os meninos com doces, convencendo-os a intimidar ou castigar quem nos prejudicava de alguma forma na escola.
Eu em minha casa na localidade de Rincão Bonito,
4º Distrito de Caçapava do Sul, em 1979.

Apesar de tudo, eu amava algo naquele ambiente acanhado, não sei bem o quê. Acredito que fosse a chance de descobrir coisas, a intuição de que havia um universo de possibilidades que se abriria a partir dali, e a prateleira de livros que havia na minha sala de aula. Uma vez eu peguei um livro sem permissão da professora, pois havia acabado as tarefas. Ao ser repreendida, joguei o livro nela com muita raiva, pois não conseguia compreender como o que eu estava fazendo poderia ser errado. Depois fiquei com medo de que ela contasse para a minha mãe, pois ficava hospedada em nossa casa, mas não contou, talvez por intuir que algo positivo poderia um dia brotar daquele “bichinho-do-mato” de cabelo arrepiado. Aos fins de semana eu pegava a chave da escola, que ficava com meus pais, e permanecia horas absorta naquele silêncio, lendo enciclopédias para estudantes quase “pré-históricas”, mas que me pareciam emocionantes.
Minha primeira grande frustração foi aos onze anos, quando passei para a sexta série, pois teria que morar e estudar na cidade e meus pais não tiveram condição, naquele momento, de me propiciar isso. Fiquei um ano indo na escola diariamente, fazendo todas as tarefas, mesmo já estando aprovada, porque não admitia ficar sem estudar. Como já sabia quase tudo, auxiliava a professora com os outros meninos, e foi nesse momento que comecei a me familiarizar e me interessar realmente pela atividade de professora, embora já brincasse de escolinha bem antes disso. Eu já sabia que não queria ser agricultora como meu pai, ou dona-de-casa e comerciante como minha mãe, e que para ser algo diferente deveria sair definitivamente do lugar onde cresci, e como tinha bem poucas pessoas em quem me espelhar, acabei vendo nas professoras um pouco do que eu gostaria de ser no futuro.
No ano seguinte fui morar com minha avó e estudar na maior escola da cidade, o Colégio Estadual Nossa Senhora da Assunção. Era uma escola tradicional, com uniforme azul e branco, uma inspetora apelidada de “Vassourinha”, professores na maioria visivelmente pobres (o professor Flávio usava um sapato furado) e insatisfeitos com a profissão, e nenhuma possibilidade de alguém como eu se dar bem. Em 1981 escolas públicas ainda tinham prestígio, então ela estava repleta de alunos oriundos de famílias falidas e sobrenome tradicional, e lá eu me sentia desajustada, infeliz, totalmente fora dos padrões: minha roupa, meu cabelo, minhas idéias, nada parecia se encaixar. No primeiro ano, não abria minha boca na aula, embora soubesse as respostas de quase tudo, e era ridicularizada por vários colegas. Lembro do nome de cada um deles, e dos apelidos que me colocaram. Havia um menino chamado Daniel, que me chamava de “pomba embuchada”. Hoje falam em bullying nas escolas como se fosse algo novo, mas sempre ocorreu, e quando presencio esse tipo de comportamento entre meus alunos, fico muito preocupada e tento de todas as formas minimizá-lo, pois remete ao sofrimento indelével que trago comigo. Minha avó foi embora e passei dois anos seguintes morando na casa de conhecidos da família, como era o costume naquela época. Fiz poucos amigos, mas como fui ficando “invisível” para as demais pessoas da escola com o decorrer do tempo, e a insegurança foi diminuindo.


Eu com minha turma de oitava série e alguns professores, em frente à Escola Estadual de 1º e 2º Graus Nossa Senhora da Assunção, em Caçapava do Sul, em 1983.
Quando terminei o Primeiro Grau, escolhi fazer magistério ao invés de ficar na mesma escola e cursar o científico. Não sei bem o que pesou mais na escolha, acho que foi a possibilidade de trabalhar ao terminar o curso, pois a universidade me parecia um sonho distante, considerando que não havia nenhuma na cidade ou perto o suficiente. Além disso, minha melhor amiga (e colega) Vera iria me acompanhar nessa “aventura”. Fomos as duas para a também (e muito) tradicional Escola Normal Dinarte Ribeiro, com seu belo prédio em frente à praça principal da cidade. Foi um período feliz para mim, pois fui morar com outra família, onde havia crianças pequenas e muita alegria, e finalmente encontrei na escola pessoas com as quais tinha alguma afinidade. É claro que tive momentos de descrédito, como no dia 1º de abril de 1984, no qual escrevi em um caderno de aula: “O que eu posso esperar da vida? No máximo vou ser uma professorinha mixuruca, ganhando salário mínimo, esperando chegar à aposentadoria. Quando ela chegar, o que poderei aproveitar? Já estarei à beira da morte.”
Foi nessa época que recebi os primeiros elogios dos professores, e percebi que eu tinha mais conhecimento que a maioria das minhas colegas. No passado, enquanto elas dançavam nos bailes mirins do CTG Sentinela dos Cerros e do Clube União (dos quais eu não era sócia), patinavam e andavam de bicicleta (eu nunca tive patins nem bicicleta), eu lera prateleiras inteiras da biblioteca da escola (inclusive os livros para adultos), então eu tinha uma larga “vantagem cultural” que compensava as grandes desvantagens sociais. O momento mais marcante para mim foi quando a professora Liadalva Evangelista, de língua portuguesa, leu para a turma uma poesia que eu tinha escrito.
Ainda tenho o poema, pois como toda adolescente, eu escrevia em um diário. Esse é um registro precioso, pois somente a memória não seria suficiente para relembrar a enorme carga de inquietações e desejos que ele expressa:

SONHO DE ÍCARO
Alço vôo nas asas das águias,
Ferozes,
De bicos agudos,
Dos picos nevados.
Projeto-me insanamente
Sobre as rochas da cordilheira
Que brota da terra,
Ferindo o azul.
Alado sem penas eu sou,
E a brisa varrendo os céus
Penetra nos poros
Da alma de asas
Liberta de mim.
Ébrio de espaço,
Vou voando sempre
Cada vez mais frio,
Frio, frio.
Cada vez mais rápido,
Rápido, rápido.
Cada vez mais alto,
Alto, alto.
Até que de repente,
Subitamente,
Um sentimento diferente aflorou;
Era o instinto de rapina.
Esvaiu-se a certeza,
O pseudo-equilíbrio acabou.
Caí na realidade
E o corpo me aprisionou.

Eu soube mais tarde ela morreu de repente, ainda bem jovem, enquanto dançava com o marido, mas a guardei entre minhas memórias mais queridas, junto com um beijo que ganhei de um conhecido – que estranho, ele também já morreu – somente porque eu sabia algo que ele também sabia e valorizava. Portanto, ainda adolescente, fui assimilando a idéia de que o conhecimento que eu adquiria, as reflexões que eu fazia, as conclusões às quais eu chegava, agregavam valor ao meu ser e geravam respeito e reconhecimento.
Na escola de magistério adquiri um pouco de confiança em mim mesma, fiz teatro, toquei na banda marcial, e fui levando a vida. Minha amiga Vera reprovou no primeiro ano e eu segui em frente sozinha. Só que meu desempenho, nos critérios da escola, foi pior do que eu imaginava ser. Não reprovei em nenhuma disciplina, mas costumava discutir um pouco com as professoras de prática de ensino na hora de elaborar os “planos”. Eu não tinha subsídios para fazer muitas críticas, mas achava que alguns procedimentos eram inúteis, confusos e inadequados. É claro que não havia espaço para esse tipo de questionamento, tínhamos que seguir o paradigma adotado por elas. Ao chegar ao final do curso, fui fazer o chamado “pré-estágio”, que consistia em planejar e desenvolver cinco aulas, uma em cada série (pré à quarta). A primeira das aulas foi de pintura com a pré-escola – só não pintaram o teto porque não alcançaram; a segunda foi de educação física dentro da sala de aula, porque tinha chovido... Um desastre atrás do outro, soma de planejamento equivocado, falta de apoio das professoras e absoluta inexperiência minha. Mesmo assim, achei que aquilo era normal, que acontecia com todas em suas primeiras aulas, e fiquei tranquila. Só que essa não foi a compreensão delas, que me reprovaram. Eu teria que ficar mais um ano na escola para poder obter o diploma de professora.

Eu e minha amiga e colega Vera, vestidas com roupas de gaúcho para o desfile comemorativo do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, na Rua 15 de Novembro, em Caçapava do Sul, em 1985.
Fiquei muito decepcionada, chorei, pois jamais havia sido reprovada, sequer pegava recuperação. Mas minha mágoa durou pouco, logo virou raiva e determinação: prometi nunca mais pisar naquela escola, fiz vestibular em Santa Maria e fui aprovada. No meu entendimento, estava dando as costas definitivamente a uma realidade que nunca foi nem próxima do que eu sonhava, mal sabendo que carregaria essa bagagem por toda a vida, embora ela tenha se tornado (um pouquinho) mais leve com o passar do tempo.
A escolha da profissão, que gera tanta tensão entre os adolescentes hoje, foi tranqüila para mim: eu sabia que queria ser professora, e devia escolher um curso de licenciatura, então optei pela geografia, uma disciplina abrangente, que abordava uma série de questões que me interessavam. Além disso, tive um professor de geografia no primeiro grau, chamado Eduardo Marin, que era muito interessante. Ele era formado em história natural, adorava pesquisar e falar sobre a evolução da Terra e dos seres humanos, os fósseis, vulcões e terremotos, todos aqueles assuntos que despertam a imaginação das crianças, e de vez em quando levava amostra de minerais e rochas para ilustrar suas aulas. Mais tarde, no segundo grau, a professora de geografia, cujo nome não recordo mais, era a única que ficava um pouquinho na sala após o sinal, para responder as perguntas que eu tinha vergonha de fazer durante a aula. No dia 16 de janeiro de 1986, eu escrevi o seguinte: “... o mais importante é poder frequentar a universidade, sonho de muitos e realização de poucos. Usei minha pouca ambição, fiz o cálculo das possibilidades, escolhi um curso com muitas vagas, conscientemente, sabendo que seria mais fácil assim. Não foi só pela facilidade, pelas maiores chances de sucesso que escolhi geografia; eu gosto, terei muito prazer em estudar.” Atualmente, ao ler isso, fico um pouco horrorizada, tal a frieza com que encarei a situação, mas isso demonstra o que todos sabemos: uma dose de sofrimento, um choque de realidade, endurecem as pessoas, por mais jovens que elas sejam.
Ao ingressar na universidade, fui uma aluna “normal”, obtendo notas razoáveis. Meu maior obstáculo foi uma professora muito antiga – mas muito mesmo! – que usava fichas amareladas pelo tempo e ditava os textos para os alunos. Não direi o nome porque após a aposentadoria, apesar da idade bastante avançada, ela continua muito ativa, e freqüenta assiduamente os eventos sociais da cidade. Por causa dela eu colei nas provas, pela primeira e única vez... E não me arrependo, porque era realmente impossível decorar tudo em uma disciplina descritiva, e porque embora decorando em parte, a professora apontava erros nas frases que ela mesma tinha elaborado. Na medida em que avançava no curso fui melhorando, cheguei a ter notas excelentes e ser muito participativa nas atividades curriculares, embora sentisse que continuava a ter limitações, embora não compreendesse qual a origem delas. Em 10 de outubro de 1987, escrevi, um pouco entediada, mas esperançosa: “Houve uma época em que supus que sabia muito, pois era ligeiramente mais esclarecida do que as pessoas com as quais convivia. Hoje me arrependo profundamente desse pensamento, porque percebi o quanto o meu saber é limitado e que a vida inteira não será suficiente para me tornar satisfatoriamente culta. Isso por várias razões, das quais posso citar a falta de condições econômicas para buscar material adequado ao desenvolvimento intelectual e a minha própria inércia, que me impede de perguntar, questionar, buscar o conhecimento além do que é ministrado nas salas de aula. Essa inércia decorre em grande parte do meu temperamento tímido e pouco participativo, herdado de uma educação repressora, que confundia disciplina com apatia. Agora convivo com pessoas de mentes mais abertas e as invejo, no que toca ao desprendimento e facilidade de expressão que possuem. Ignoro se algum dia serei suficientemente extrovertida para exercer de maneira satisfatória minha profissão, que exige muito nesse sentido, mas tentarei. Certas barreiras precisam ser vencidas, mesmo que à custa de certo sacrifício e alguma vergonha no início, o que certamente acontecerá comigo quando começar a lecionar. O que me consola é a suposição de que, em tempos idos, os professores nos quais agora admiro o conhecimento foram tão ignorantes dos desdobramentos da ciência geográfica quanto eu sou agora.”


Eu com alguns colegas do Curso de Geografia da Universidade Federal de Santa Maria, em um evento em São Gabriel, em 1988.

Então, em 1988, houve um grande protesto dos estudantes contra a formação do consórcio de transporte público e o aumento das passagens. Nas ruas, impossibilitada de ir à universidade, conheci estudantes envolvidos no movimento estudantil. Interessei-me por eles e suas idéias, um universo totalmente novo para quem cresceu no interior durante a ditadura militar e foi adolescente na década perdida. Fomos juntos ao congresso da UNE em São José dos Campos e ao voltarmos, formamos a chapa “Alternativa”, que foi vencedora na eleição para o DCE naquele ano. Meus colegas de movimento eram, na maioria, ligados a dois partidos políticos de inspiração socialista – o PT e o PSB, mas eu não me filiei a nenhum partido, pois achava que optar por um lado só era uma atitude “sectária” – para usar uma expressão em voga na época. No início, quando eu tomei conhecimento de tudo o que havia sido omitido, por meus pais, pela escola, pela sociedade, fiquei um pouco raivosa, como mostra essa trôpega anotação de 21 de janeiro de 1988, sobre “a educação no Brasil”: “O Segundo Grau, como o Primeiro, não estimula a crítica. Visando somente a profissionalização ou o vestibular, não permite a participação do aluno nas eternas aulas expositivas. Se você tem dinheiro, chega finalmente ao curso superior. Agora o vôo é permitido, mas a formação anterior, ineficiente, não lhe equipou com asas. Falta método, espírito crítico, independência e conhecimento para se manifestar em aula como exigem. Se você fizer licenciatura, será um mau profissional e o círculo vicioso se completará.”
As atividades no DCE, onde eu era secretária de imprensa, tomaram grande parte do meu tempo e provocaram um esgotamento físico e mental muito grande, e eu comecei a ter notas medíocres, cheguei a reprovar em umas duas disciplinas. Apesar disso, acho que foi um grande aprendizado sobre política e sobre os seres humanos, que dentro das salas de aula da universidade eu jamais teria, e eu devo muito a esse período o tipo de pessoa e de profissional que eu sou. Um dos acontecimentos mais marcantes para mim durante essa fase foi a campanha pela democratização das eleições para a reitoria, com o Universidade pela Base, que escolheu como candidato o professor Gustavo Quesada. Acompanhei de perto todos os debates e pude perceber a possibilidade de professores e alunos dialogarem de igual para igual, mesmo na universidade. Mais tarde, achei que estava dedicando tempo em excesso à política estudantil, sem obter o reconhecimento desejado, e abandonei o movimento.
Em 1990 eu me casei, e o meu filho Guilherme nasceu. Não perdi um dia de aula, porque o parto foi nas férias de julho, e eu o deixei na creche quando tinha duas semanas. Não achei que fosse abandono, não senti culpa, porque eu pensava no futuro, em como iria sustentá-lo se não concluísse meu curso para poder trabalhar. Foi complicado às vezes: durante o estágio, eu preparava aula e embalava o carrinho de bebê ao mesmo tempo. Isso era tão automático que eu chegava a embalar o carrinho vazio quando esquecia ter colocado o Gui em outro lugar. Fiquei com média cinco em prática de ensino (quase reprovei de novo), talvez porque considerasse (e abrisse a minha grande boca) perda de tempo aprender como fazer círculos perfeitos no quadro usando um barbante, irrelevante insistir para que os alunos pintassem os oceanos nos mapas somente com azul claro, e afirmasse que as aulas eram mais importantes que os planos de aula, opiniões não compartilhadas pela professora Sônia. Mas esse não foi o fim da história: meu marido conseguiu um emprego em Santa Rosa e eu tive que acompanhá-lo, trancando o curso durante um ano. Quando voltamos, fiz meu trabalho de graduação, com a ajuda do meu pai, que me levava ao local onde eu fazia a pesquisa de campo, pois eu não sabia (e ainda não sei) dirigir. Minha colação de grau foi meio sem graça, pois dos antigos colegas, que fizeram vestibular comigo, somente dois se formaram no mesmo dia. Mas ainda lembro a sensação que tive ao jogar o capelo para cima: foi de triunfo, indiscutivelmente.

Eu em minha formatura, no Centro de Atividades Múltiplas de Santa Maria, em 1992.
Comecei a trabalhar acho que um ano depois, na rede estadual, no CIEP de São Sepé. Era a administração do governador Collares, com seu “papagaio de pirata” Neusa Canabarro, que nos empurrou para a combinação mal planejada e fatalmente desastrosa entre calendário rotativo e turno integral. Eu, recém-formada e inexperiente, mas já muito corajosa, enfrentei (essa palavra é muito adequada) turmas enormes e indisciplinadas, em tarefas que incluíam o almoço e a escovação de dentes. No final do ano letivo eu estava literalmente na lona e pedi exoneração.
Fiz concurso em uma universidade particular e passei em terceiro lugar – sempre fui boa em concursos – mas somente os dois primeiros candidatos foram nomeados. Não querendo me fazer de vítima, mas já me fazendo – acho que houve marmelada, porque eles eram professores substitutos e foram efetivados pelo processo.
Dei aulas em um curso preparatório para provas de escolas e academias militares durante um tempo, e foi bem interessante, porque o salário era muito bom e tive a oportunidade de falar, pela primeira vez, para grupos de mais de setenta pessoas.
A estabilização profissional veio somente quando passei no concurso da rede municipal de Santa Maria e fui nomeada para uma escola pequena (e bastante tranqüila, apesar de estar localizada na Vila Carolina, uma das mais violentas da cidade). Pela primeira vez consegui ter paz de espírito e autonomia para planejar minhas aulas, e senti a possibilidade de trabalhar e me divertir ao mesmo tempo, ou seja, escorregando deliberadamente no clichê: apaixonei-me pela profissão de professora. Fiquei lá por três anos, depois saí, cansada de ser boicotada porque “cometi o erro” de apoiar a chapa perdedora na eleição para a direção da escola. Percebi que até em bons estabelecimentos existem maus profissionais, e tive certeza de que algumas pessoas não conseguem conviver com idéias discordantes. Fui transferida para a EMEF Júlio do Canto, em Camobi, onde trabalho há doze anos. Sou parte orgulhosa de uma equipe coesa, que sabe administrar conflitos e tem um projeto de educação vitorioso, que consegue bons resultados até mesmo naquelas avaliações cruéis do MEC. Ser funcionária da SMED tem uma vantagem que considero fundamental: eles valorizam muito o aperfeiçoamento profissional, inclusive financeiramente, pois temos um bom plano de carreira, apesar de o salário estar a anos-luz do ideal. Durante esse tempo fiz curso de especialização e de mestrado. Para o último, obtive uma licença remunerada de dois anos, e ao final dela, pude voltar para a mesma escola onde trabalhava.
Pode parecer que os meus grandes reveses no ambiente escolar acabaram, mas não. Uma vez fui selecionada para dar aulas no cursinho pré-vestibular Constantino, que hoje não existe mais. A empresa estava passando por dificuldades, pois um grande grupo de professores tinha pedido demissão e passado para a concorrência, o recém inaugurado Fóton, por isso as imensas salas estavam praticamente vazias, em especial as das disciplinas tidas como fáceis, como a geografia. Eu, que sequer fui aluna de cursinho, comecei a dar aulas para uma platéia de três a dez pessoas em um auditório, detestando cada minuto em que olhava para as caras de paisagem de meus alunos. Ao final de um mês, o dono do Constantino me chamou em sua casa e me demitiu, explicando gentilmente que se enganara ao meu respeito, pois minha entrevista fora ótima, mas meus alunos detestaram as aulas, a minha voz, o meu jeito, e escreveram na avaliação que “eu nem parecia professora de cursinho”. Fiquei muito indignada, principalmente com aquela história de não gostarem da minha voz, e muito aliviada por me livrar daquilo. Foi minha segunda e última incursão no ensino privado, jamais levei (ou levarei) meu currículo a uma escola particular, fiquei traumatizada, não posso lidar com esse tipo de rejeição onde não é o meu conhecimento que está em jogo.
Há dez anos eu fiz concurso de novo para a rede estadual, mas para trabalhar em Santa Maria. Fui quase imediatamente nomeada, pois estava aprovada em segundo lugar, e comecei a trabalhar na Escola Básica Estadual Cícero Barreto. Não foi um “céu aberto”, mas também não enfrentei grandes problemas. Após dois anos passei a trabalhar no noturno, sendo recebida por uma novidade: o ensino regular seria paulatinamente substituído pelo EJA. O que era isso ninguém sabia, não estávamos familiarizados com a nomenclatura e nada nos foi esclarecido durante muito tempo, até que começamos a receber instruções sobre a legislação que o regulamentava, e as formas corretas de implementá-lo. Como toda mudança que nos é imposta nas escolas pelo Estado, é preciso experiência para que possamos filtrar o que é realmente relevante no discurso, e o que pode ser feito de fato. Conseguimos, após alguns anos, uma situação que externamente pode parecer sucesso, mas que para alguns professores (como eu) “cheira” a acomodação, pois permanece a impressão de que é uma formação incompleta, inadequada, insuficiente. Colaboram para essa sensação os depoimentos francos dos alunos, que afirmam estar em busca somente de seus certificados, para conseguirem ou não perderem seus empregos, e não lhes interessa muito debate, nem aulas práticas, porque estão sempre cansados e sem disposição. Querem um professor que dê aulas expositivas e faça trabalhos avaliativos (a palavra prova é altamente amedrontadora para eles).

Eu com colegas e alunos formandos da totalidade 9, na Escola Básica Estadual Cícero Barreto, em 2007.
 
Tenho um conceito já formado do que é trabalhar como professora. Por acreditar parcialmente no juízo que alguns fizeram de mim ao longo da carreira, estou certa de que não é minha vocação. Não tenho habilidades, naturais ou desenvolvidas, que auxiliem na conquista da simpatia dos alunos: não sei cantar, dançar, representar, contar piadas... Mesmo assim sou competente na maior parte do tempo, consigo mobilizar minha classe, interessá-los por muita coisa, instigar sua curiosidade, fazê-los investigar e descobrir. É algo inteiramente construído. Não consigo deixar de pensar nos escritores, dançarinos, atores, etc., que atribuem a origem do seu sucesso principalmente à transpiração, e não à inspiração. Eu poderia ter seguido outra profissão qualquer (ou mudar de profissão atualmente), sem grandes traumas, mas escolhi o magistério.

Eu em um curso de Geografia Urbana, durante o Encontro Nacional de Geógrafos, em Rio Branco (AC), em 2006.
Sei que os alunos com mau desempenho escolar costumam procurar essa profissão, mas não foi esse o meu caso (sempre tive bom desempenho nas disciplinas básicas), por isso não sou afetada pela costumeira baixa auto-estima e pelo status ruim que a atividade possui. Ao contrário, busco valorizá-la através de meu empenho pessoal, de todas as formas possíveis: estou sempre estudando (Coisas de todo tipo, não somente o material técnico de minha disciplina: filosofia, história, literatura nacional e estrangeira, revistas e jornais diversos, blogs e sites da Internet, quadrinhos), participo de eventos fazendo relatos de experiências, tenho o compromisso íntimo de fazer algo realmente inovador a cada ano letivo – mesmo que seja com apenas uma turma de cada vez, e procuro estar “antenada” no mundo da cultura pop (que é fonte de ganchos espetaculares para utilizar nas aulas).


Eu com meus alunos de 5º ano em visita à Universidade Federal de Santa Maria, em 2009.
Estou longe do ideal da “Professora Maluquinha” do Ziraldo, ou de ganhar o prêmio de “Educadora Nota 10”, mas continuo entusiasmada e feliz de “estar” professora, a ponto de não me importar com o fato de precisar ficar mais de duas horas por dia andando de ônibus para chegar aos meus locais de trabalho. Nada tira minha alegria com o que faço, embora os desafios se renovem e pareçam cada vez mais difíceis. Por exemplo: meu segundo emprego na rede municipal (onde comecei neste ano, após pedir demissão da rede estadual pela segunda vez) é na EMEF Adelmo Simas Genro, situada no bairro Alto da Boa Vista. Muitos dos meus alunos de lá são maltrapilhos, magricelas e têm dentes cariados, e chegam às pencas na escola, acompanhados seus pais analfabetos e de seus cachorros sarnentos. Esse não é um quadro do Portinari, é bem real, e tem cheiro ruim, mas mesmo assim consigo ver neles infinitas potencialidades, tenho grandes esperanças em sua redenção, presente e futura, e confiança na minha capacidade de ajudá-los. Enquanto eu acreditar neles, mesmo que tenham desistido de si mesmos, quero “continuar” professora.

Entrada da EMEF Adelmo Simas Genro: mãe, filhos e o cachorro da família.
A necessidade de contínuo aperfeiçoamento é um componente importante desse meu projeto de vida, o que levou à decisão de me inscrever no Curso de Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. Considero uma “deficiência” preocupante não ter qualquer formação específica na área de educação, e pretendo continuar meus estudos nessa linha após concluir esse curso. Fazer uma monografia sem abandonar as atividades profissionais não é novidade para mim, e provavelmente não será a última vez que passarei por isso. Ainda estou refletindo sobre a escolha de um tema de pesquisa, mas acredito que não será difícil, pois a metodologia da professora Liliana Ferreira, de realização de uma narrativa sobre a vida acadêmica, buscando idéias recorrentes, é uma grande facilitadora dessa tarefa. Para ser mais enfática, acho que esse método é o mais coerente que já me foi sugerido, e certamente levará a um estudo relevante, se não para as outras pessoas, pelo menos para a satisfação de meus anseios pessoais.
O que posso afirmar para concluir? Expus a minha versão da verdade, omiti outras possíveis versões, pus as cores que pude lembrar, iluminei o que foi possível, escureci o que não consegui enfrentar. Nada mais por ora.

Marcia, professora.
Santa Maria, 08 de abril de 2010.

2 comentários:

  1. Estou traumatizado permanentemente! hehehe
    Me vingo usando o dia das mães para viajar em pesquisa acadêmica. ;D

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  2. Nossa, sora, como a senhora escreve heein :O
    muito perfeito :)

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