domingo, 25 de outubro de 2009

MULHERES COM C – 1ª – CAMILA



Camila desceu do ônibus no último ponto. Era sexta-feira. Um arrepio de cansaço desceu pela sua nuca. Os pés formigaram, doloridos. Ainda precisava caminhar sete quadras até em casa. As ruas eram escuras e esburacadas, sem calçamento, sem calçada. Pequenas árvores sombreavam o caminho. Ela andou devagar, sem pensar no que as sombras poderiam conter. Não encontrou ninguém. Ouviu conversas esparsas e viu o multicolorido dos televisores refletindo-se nas janelas. Se parasse um instante, poderia cochilar em pé. Nunca mais cobriria o turno de nenhuma colega, pensou. Doze horas no caixa, milhares de códigos de barras, o bipe martelando em seu cérebro. Sorriso, cumprimento, código, sacola, cartão, nota, dor de cabeça... Onde andará Francisco? Escada, rampa, escada, casa escura. Sozinha de novo. Gostaria de não se importar, mas só tem a ele. Seu filho está distante, a avó agora é “Mãe”, a mãe é só “Camila”. No banho, observou a barriga, tão redonda e branca. Grávida de novo.


E eu que tinha apenas 17 anos

Baixava a minha cabeça pra tudo

Era assim que as coisas aconteciam

Era assim que eu via tudo acontecer





Camila, Camila 

Nenhum de Nós

Composição: Carlos Stein / Sady Hömrich / Thedy Corrêa

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