sexta-feira, 18 de setembro de 2009

BRASÍLIA

Minha profissão traz o estigma do apostolado e, para não contrariá-lo, sou como quase toda professora, bastante compromissada com o desempenho eficaz e eficiente (às vezes beirando o super-heróico) de minhas funções, que variam do “feijão-com-arroz” de todos os dias aos razoavelmente inventivos (e perturbadores da paz alheia) projetos anuais. Esse cativeiro voluntário é ao mesmo tempo doce e amargo, pois gera intensos júbilos e poderosas frustrações, além de uma privilegiada e às vezes impagável posição como observadora da tragicomédia humana. Um ano letivo transcorre na mesma rapidez com que nossos meninos e meninas passam pelo “estirão” físico e, de repente, estão mais altos do que nós. É difícil escapar dessa roda-viva, a não ser por um motivo muito bom – e politicamente correto. Minhas “fugas” são esporádicas e contam com o apoio gracioso de meus colegas, que solidariamente atendem meus alunos enquanto estou ausente. Na primeira semana de setembro, fui apresentar um pôster da minha dissertação no XI SINPURB, em Brasília. Resolvi ir de ônibus, apesar dos protestos, lamúrias e lamentações de minha família, que obviamente não entendeu porque uma pessoa da minha, digamos, faixa etária, estava disposta a se submeter a uma viagem tão longa pelas trilhas de cabra do interior do Brasil. A explicação é muito singela: gosto de ver os lugares, cheirar a poeira, observar as pessoas... Os caminhos, por mais longos e difíceis que sejam, exercem um enorme fascínio sobre mim. Mas voltei de avião, um transporte menos obsoleto, e as trinta e cinco horas de trajeto miraculosamente transformaram-se em duas horas. O simpósio foi um déjà vu, com a habitual e desnecessária autoflagelação dos geógrafos, andando em círculos em um debate vazio e interminável. No tempo livre, fui ver a cidade (quer dizer, só o Plano Piloto, porque é difícil se locomover naquele mar de automóveis, sem calçadas ou passagens para pedestres). “Descobri” o óbvio: é um lugar diferente de tudo o que eu já conhecia, mas não no sentido que eu esperava. Na verdade, parece um caleidoscópio de cores, sotaques e sabores, algo imprevisível considerando o que se ouve falar sobre a capital. É um cadinho cultural, alimentado por décadas de migrações. Minha impressão é que todos os dias a população das cidades satélites aflui para lá, buscando desesperadamente emergir e respirar, seja vendendo produtos piratas numa esquina qualquer (esquinas bem sui generis), seja limpando o chão onde os poderosos e engravatados pisam. O projeto da cidade perfeita e organizada, um oásis urbanístico, perdeu-se no passado, e a metrópole cresce desordenada e doentiamente, no mesmo ritmo de todas as outras no país. As luzes são muito brilhantes, tudo pulsa de modo intenso, movido pela energia e pelo trabalho de centenas de milhares de pessoas que são invisíveis ao Estado capitalista, embora vivendo no seu core. Lá, mais do que em qualquer lugar, é dolorosamente perceptível a falácia da democracia brasileira.

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