quarta-feira, 5 de agosto de 2009

SORRY, I LIKE TO WRITE...

A Lady Writing (Vermeer)

Desde a adolescência tenho um apetite voraz pela literatura alheia e comichões para escrever. Por que não cometi nenhum poema, conto ou crônica a sério? Porque sempre acreditei na minha própria sanidade, que me leva a desconfiar de qual matéria meus textos são feitos (é tudo uma m.). Eles são crivados de penduricalhos inúteis, adjetivos e advérbios se entrelaçando como ervas daninhas. Além disso, não sei falar sobre os outros, só consigo escrever sobre mim mesma. Embora evitando menosprezar a profundidade de minha alma, é um material muito pobre para se trabalhar. Meu filho diz que a fecundidade e a riqueza na composição de seus textos provêm unicamente de suas crises pessoais, e grandes autores, como Nietzche, escreveram obras-primas contrastantes com a miséria de suas vidas, por isso acho que devo desistir em definitivo, levando em conta minha vergonhosa vocação para a felicidade.Mas ultimamente tenho estado a filosofar em meu íntimo sobre algumas coisas, um efeito colateral previsível da chegada aos quarenta anos. Não são propriamente reminiscências, porque não as cultivo. Ao contrário, abuso da capacidade de selecionar memórias convenientes. (Hábito perigoso, pois às vezes sou traída pelo meu método: esqueço muitas coisas más, e também as boas.) Ando realizando mentalmente uma espécie de inventário para justificar minha alegria ao abrir os olhos todos os dias quando acordo, a despeito da pouco promissora realidade do mundo lá fora. É claro que o "lá fora" já esclarece muita coisa (what's wrong with being selfish?). Os resultados do processo estão neste blog, brotando como cogumelos venenosos, em tudo inúteis e perigosos.

Um comentário:

  1. As crises pessoais são de fato o melhor material, ou pelo menos o mais fácil de ser trabalhado. As vezes, contudo, não temos esse material a disposição (coisa que não é nada lamentável), nesse caso o resto do nosso interior vem à tona. Nada deve ser desprezado, nem mesmo o lado negro da força.
    Tens o meu apoio conservador às tuas idéias revolucionarias..

    ResponderExcluir